O Evangelho, o Pobre e o Ódio

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O EVANGELHO, O POBRE E O ÓDIO!

Para entrarmos nesse contexto se faz necessário falarmos rapidamente da encarnação do Filho de Deus no seio da humanidade. Jesus nasceu no universo tomado pelo imperialismo romano. Sua encarnação assumiu a inculturação social, política e religiosa de sua época. Jesus não foi alheio ao sofrimento, a pobreza e ao ódio que os pobres de sua época eram submetidos. Nasceu e viveu com os pobres e como eles…
Ele é a grande novidade de Deus diante do contexto de perseguição, de desmando, de opressão que o povo era submetido, ao afirmar:”Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”.(Jo 14,6).

Ele é o ungido de Deus e nosso libertador: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para pregar o Evangelho aos pobres. Ele me enviou para proclamar a libertação dos aprisionados e a recuperação da vista aos cegos; para restituir a liberdade aos oprimidos.”(Lc 4,18) Veio trazer o bálsamo do amor redentor de Deus ao povo oprimido e cansado, ao dizer: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas “.(Mt 11,28-29)

A novidade de Jesus ultrapassou o tempo e o espaço e chega hoje aos nossos dias tão marcado pelos mesmos problemas e sobretudo nessa avalanche que a pandemia trouxe para nós.

Os pobres sempre tem sido massa de manobra para políticos descompromissados com uma ordem social que os emancipe e não os torne reféns de um assistencialismo, ideológico e iníquo.

Os profetas de ontem e de hoje continuam sendo perseguidos, caluniados( hoje de comunistas) e mortos por lutarem pela justiça. Aqui quero citar três: O grande Amós:”Escutai, vós que vos encarniçais contra o pobre, para aniquilar os humildes da terra, vós que dizeis: quando é que passará a lua nova, para podermos vender os grãos, e o sábado, para abrirmos os sacos de trigo, diminuindo a efá, aumentando o siclo, alterando balanças, comprando o indigente a dinheiro é um pobre por um par de sandálias? Venderemos até o farelo do trigo!”(Amós 8,4-6) O profeta do nordeste, o arcebispo dom Helder Câmara que dizia:”O verdadeiro cristianismo rejeita a ideia de que uns nascem pobres e outros ricos, e que os pobres devem atribuir a sua pobreza à vontade de Deus.” E dom Hélder continua:”Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.” E o profeta educador hoje tão perseguido, Paulo Freire:”Ninguém liberta os pobres, senão eles próprios”.

Nós cristãos temos o dever batismal de sermos portadores da verdade evangélica contra as mentiras manipuladoras, as espertezas opressoras dos dominadores de hoje como muitos fizeram no passado. Não podemos entrar na doença da insensibilidade e apatia diante do contexto que estamos inseridos. O exercício da nossa cidadania e nossa condição cristã é um imperativo que tem que ser visto em dois ângulos: jurídico que lembra nossa vocação de indivíduos sociais que tem direitos e deveres e ético-teológico que aponta para o mistério da encarnação do Filho de Deus que assumiu toda a dimensão da humanidade, exceto o pecado, é dever portanto, de nós cristãos assumirmos o mundo e sermos voz profética sem temermos as perseguições, calúnias e até a própria morte. O martírio se for necessário pela justiça do Reino de Deus! Afinal de contas a Sagrada Escritura em seus dois testamentos apontam diversos anúncios proféticos para os pobres, são eles: os órfãos, as viúvas e os estrangeiros.

Quando olhamos para história da Igreja temos a contribuição da patrística que sinaliza a defesa de políticas públicas. Vejamos alguns exemplos: São João Crisóstomo que percebeu a tragédia humana que nem por baixos salários se contratava os pobres. Nessa mesma linha São João Nazianzeno que falava aos governantes que praticassem o bem e à justiça para os pobres. E Santo Ambrósio que dizia que tudo deve ser útil a todos e não apenas a uma parcela.
Diante desse cenário é inconcebível vermos hoje “cristãos” que se fecham em seus templos ou em ideologias políticas ultraconservadoras que os tornam indiferentes à vida pública.
A fé não pode de maneira nenhuma ser desencarnada do universo social. O cristão seja ele leigo ou clérigo deve se envolver na luta contra todo tipo de racismo, violência, discriminação, intolerância.
No Reino de Deus não há espaço para que o poder submeta qualquer minoria a sua vontade oprimindo e promovendo a violência.
A moral cristã sempre defendeu e defenderá a dignidade da pessoa humana. Seja ela quem for! Essa temática é sempre antiga e nova. O próprio Jesus foi o primeiro a fazer a opção pelas minorias, os pobres, a prostituta. É portanto dever ético e profético do cristão desmascarar as injustiças contra as minorias existentes! Não podemos descartar que a sociedade que na sua maioria se diz cristã demoniza a cultura e volto afirmar que a onda ultraconservadora que tomou conta do mundo se fecha ao diálogo disseminando o ódio, as fekes News esquecendo-se do mandamento do amor.

Há no momento uma corrente que está instrumentalizando a religião e os “cristãos” para defenderem suas ideologias, hoje o chamado gabinete do ódio.
São momentos difíceis que estamos atravessando e cabe a todos nós cristãos comprometidos com a verdade do Reino, darmos a esperança, a libertação que Jesus veio trazer aos homens e mulheres do nosso tempo. Concluo com as Palavras de Jesus:”E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.(Jo 8,32) É preciso afirmar que essa verdade é o próprio Cristo Salvador e não nenhum ser deste mundo que vai se apresentando como a solução ideológica salvadora da humanidade. Não sejamos submissos ao sistema que dita suas “verdades” manipuladoras. Sejamos disseminadores da justiça, da verdade, do amor, do perdão entre todos. Não deixemos as bandeiras ideológicas mancharem e abafarem a semente do Reino de Deus. Reflitamos!

Padre Marcelo Campos – Sacerdote do clero da Diocese de Nova Friburgo/RJ E Pároco da Paróquia de São José do Ribeirão em Bom Jardim/RJ.

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