A Graça de Deus – Parte 01

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    Uma das palavras mais ditas na Igreja Moderna é a palavra “simplicidade”. Essa palavra carrega em si mesmo, fazendo uso de uma forma metalinguística de linguagem, uma carga de profundidade. Parece um paradoxo, mas acredito que é isso mesmo. Ser simples de fato é mais difícil do que ser complexo. A Igreja Moderna é tudo, menos simplicidade. Ela se complicou. Não era para ser complicada, era para ser simples, mas infelizmente se complicou. E no que mais a Igreja Moderna se complica é em explicar o que é graça. Como a graça de Deus nos atinge. Como ela atua na prática. Tudo por conta de uma falácia no início do pensamento. Se eu ficar aqui, caro leitor, definindo e redefinindo graça eu farei uma sistematização horrorosa e que em nada vai acrescentar. Prefiro partir para a experiência e depois definir. Calma! Não usarei a experiência para definir. Apenas começarei pela experiência e então falaremos das falácias e das verdades.

    Em um certo dia, em minhas introspecções, comecei a lembrar de minha conversão. Lembrei que eu me senti o mais imundo dos pecadores. Eu tinha apenas 15 anos e desde muito pequeno era religioso, muito religioso. Mas, mesmo assim, sentia-me o pior dos pecadores. Lembro que eu estava em um vestiário de educação física, no colégio militar, e o rapaz que pregava a palavra disse:

Se você quiser o perdão dos seus pecados e entregar sua vida a Jesus, venha aqui agora e que eu orarei por você e você receberá Jesus em seu coração”.

Foi exatamente o que eu fiz. Deus já estava trabalhando em minha vida. Esse mesmo irmão já estava pregando com palavras e sem palavras para mim por uns três meses. Eu fui até ele naquele dia. Ajoelhei-me. Chorei como um bebê. E naquele dia ele me disse: “Seus pecados já foram perdoados e seu nome foi escrito no livro da Vida.” Eu jubilei com aquelas palavras. Eu não havia feito nada para ter meus pecados perdoados. Sujo e pecador como eu me via, recebi o perdão total de meus pecados. Não houve nada que eu tivesse feito que fosse anterior ao perdão de meus pecados. Jesus fez tudo sem eu ter feito nada antes. Eu não precisava entender. Eu apenas precisava receber. Após esse primeiro passo eu passei a seguir incondicionalmente o Senhor. Fazia tudo que o Senhor me falava. Não tinha mais a minha vida como preciosa. Reflexo da Graça.

    Nunca tinha ouvido falar de graça barata. Eu só sabia da graça de Deus. Lembrei de um testemunho que eu ouvi do Jaime Kemp. Ele contou que tem um irmão adotivo. O pai dele adotou ele ainda bem criança. Esse irmão cresceu e envolveu-se com tudo o que de ruim poderia existir. Drogas, roubos, imoralidades. Contraiu dívidas e finalmente foi preso. Na prisão, quiseram saber quem iria visitá-lo. Alguns sabendo de sua história e conhecendo quem era seu pai, um homem de Deus, diziam que jamais ele deveria dizer ao seu pai onde ele estava. Que isso seria uma decepção para seu pai. E deixando todos os seus ouvintes atônitos, ele respondeu: “A única pessoa que eu tenho certeza que viria me visitar é o meu pai”.

O filho aprendeu com o pai, pois esse pai sabia o que era graça. E foi exatamente o que ocorreu. Seu pai, um homem caído como todos nós, foi visitá-lo e cuidou dele ate ele poder sair de lá. Esse homem sabia ensinar com a sua vida o que era graça.

    Não há condições para a graça. A graça existe e existiu antes de você ou eu cumprirmos o que chamamos de condições. A graça de Deus é manifesta pelo oferecimento de seu Filho como sacrifício incondicional pelos nossos pecados. Não há condições anteriores. Ai, ai, ai. O que você, caro leitor, pode estar pensando. Não se preocupe, eu já sei. Eu sei muito bem o que se passa na mente formada nas Igrejas Modernas. Os lábios quase tremem com o fim de dizer: Isso é graça barata, seu blogueiro desprezível!

    Você então vai me permitir continuar com o relato. Espere por tudo. Depois pode me apedrejar. Mas não agora. Leia tudo, ok?

    Lembrei desse testemunho e pude ver o quanto minha visão técnica estava distante disso. Acho que nem pelo meu filho eu faria isso. Acho que eu diria assim: ele escolheu o caminho dele. Se ele quis embora, que se vá. Deixe o Senhor dar uma surra nele e ai quem sabe ele volta arrependido. Minha paciência já estaria esgotada com um filho assim. Percebi que eu estava caído da graça. Eu não tinha mais nada da graça. Eu estive tão preocupado com as condições para ser um discípulo de Jesus que eu nem lembrava da tal graça. Que horror! Eu estava indignado que os evangélicos estavam impregnados da tal da graça barata dita por Bonhoeffer e que deveria eu reconceituar a graça e a mensagem evangélica. É verdade, tinha mesmo que fazer isso. No entanto, alguns alteraram tudo. Jogaram fora a força motriz da vida e se detiveram em um motor sem energia. O motor tem de girar e colocaram o discípulo dentro de uma roda, tal qual um hamster, a fim de fazer esse motor girar e a vida ser gerada. Isso produz uma massa falida de pessoas cansadas e desanimadas. É o poder da inversão das verdades.

    Ainda continuando na experiência: eu recebi Jesus, logo recebi a graça. Sem precisar ouvir um rosário de condições eu agi em acordo com essa graça. Isso foi automático. O poder de agir conforme a determinação de Deus estava em mim. Precisava apenas de instrução para seguir. Só que tem de ser na ordem correta: primeiro a graça, depois as instruções do caminho. Lembrando de tudo isso fiquei observando como as coisas se inverteram. Jesus, precioso Jesus, me recebeu como eu estava. Ele só queria que eu o seguisse e olhasse para Ele. Ele entrou em mim. Fez residência em mim. Não obstante os meus pecados, ele me amou e me deu a força e o poder que eu precisava para fazer a vontade dele. Essa foi a minha experiência. O fato é tão verdadeiro que uma semana depois que eu me converti eu fui chamado para ir a um baile de 15 anos, baile de debutante. Isso era normal para os alunos do internato do colégio militar. Íamos fardados para dançar com as meninas e naquela época, era costume no colégio militar, menores como nós bebermos até ficarmos bêbados. Eu fui ao baile. E sem ninguém falar nada para mim eu não me senti bem. Sai de lá chorando. Quando cheguei ao colégio o rapaz que pregou para mim me disse: “E ai, o que você sentiu?” E eu respondi “Senti-me muito mal, nunca mais vou nesses bailes”. Ele apenas respondeu: “Eu sabia que o Espírito Santo iria se incomodar dentro de você”. Detalhe: eu tinha 15 anos e ele também. Éramos meninos e sabíamos mais que pastores velhos. Sabíamos a ordem das coisas. Sabíamos que a vida não pode ser suprimida e que ela cresce onde há condições.

Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que por meio de sua pobreza vocês se tornassem ricos. (II Coríntios 8:9)

    Lembrei de cada ponto de acerto e de cada desvio de minha vida. Observei, nessas lembranças, que eu havia aprendido que graça, conforme o texto referenciado acima, é se dobrar a alguém, ajudar a alguém que não merece a nossa ajuda. A graça não é uma coisa que podemos merecer nem pagar. Deus diz: eu amo você e ponto final. O problema todo é que começamos pela graça e terminamos pela lei.

    Ao entregar minha vida a Jesus eu confiei que meus pecados foram perdoados e que eu fui recebido pela graça de Deus. Eu sabia, cabalmente, que eu não tinha contribuído com nada para receber tamanho perdão. Foi tudo pela graça de Deus. O que acontece às vezes é que em vez de aceitar o fato de que nós começamos pela graça e vivemos sempre pela graça de Deus, vivendo a vida cristã pela graça dEle, nós começamos a ficar legalistas tentando seguir uma lista de regras. Enquanto eu consigo cumprir minha lista de regras, tudo fica bem. Eu sentia que uma vez por ano eu receberia uma nota de Deus. Era como se Deus dissesse: olha esse ano você perdeu a paciência com seus filhos tantas vezes, não pregou a palavra outras tantas vezes, não contribuiu outras vezes. Então eu vou ter de abaixar a sua nota. Olha o que Paulo diz em Romanos:

Pois o pecado não os dominará, porque vocês não estão debaixo da lei, mas debaixo da graça. (6:14)

Paulo ficou muito preocupado com o fato de que uma das igrejas da região da Galácia estava começando a voltar para a lei, em vez de viver pela graça. Tanto é que ele diz em Gálatas 2:21:

Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça vem pela lei, Cristo morreu inutilmente!

Se a nossa justiça vem através daquilo que nós fazemos, então Cristo morreu em vão! Nós nunca vamos conseguir viver a vida cristã pelo nosso esforço. Por isso que precisamos de Jesus e da graça dEle. Consigo perceber até a emoção do apóstolo Paulo no capítulo 3 de Gálatas:

Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou? Não foi diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como crucificado?

Gostaria de saber apenas uma coisa: foi pela prática da lei que vocês receberam o Espírito, ou pela fé naquilo que ouviram?

Será que vocês são tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, querem agora se aperfeiçoar pelo esforço próprio? (vs. 1-3)

Eu não poderia de jeito nenhum fazer isso. Se eu comecei pelo Espírito, ou seja, pela graça, não poderia agora terminar pela carne, sou seja, pela lei. O problema é que quando eu começava a entender e a falar a mim mesmo sobre a graça, minha mente envenenada pensava: se a vida cristã não depende de mim, eu vou viver como eu quiser e isso seria um completo absurdo! Esse mesmo pensamento foi gerado nos romanos. Tanto é que o mesmo apostolo Paulo em Romanos 5:20 é obrigado a explicar sobre isso:

A lei foi introduzida para que a transgressão fosse ressaltada. Mas onde aumentou o pecado, transbordou a graça.

E ainda disse:

Que diremos então? Continuaremos pecando para que a graça aumente? De maneira nenhuma! Nós, os que morremos para o pecado, como podemos continuar vivendo nele? (6:1, 2)

Eu só consigo entender a seriedade e o tamanho da graça de Deus quando eu consigo entender o tamanho e a seriedade do meu pecado. É porque o pecado é tão terrível e tão mortal que a graça é tão maravilhosa. Vou tentar explicar da seguinte forma:

    Vamos dizer que você me convida para jantar em sua casa e em uma hora em que eu esteja lavando as mãos em seu banheiro eu veja um vidrinho de um perfume caro, um perfume francês que eu sempre quis experimentar. Então eu roubo um pouquinho do seu perfume. Eu não sou muito esperto, por que você logo vai perceber que eu usei o seu perfume, você sentirá o cheiro em mim. No entanto, se você não perceber, ou se mesmo percebendo, você não quiser falar, eu chegaria em casa e pensaria que não deveria ter feito aquilo e me proporia a ir confessar a você o que eu fiz. Eu então vou até você, confesso o que eu fiz, você me perdoa e até me dá o vidrinho de perfume. Eu vou sentir a sua graça em me perdoar e até em me dar o vidrinho de perfume. Agora vamos dizer, do outro lado, que eu chego para você e digo: “Eu matei seu filho, você me perdoa?” E após isso eu recebo o seu perdão, qual será a diferença da graça que eu vou sentir?

    Quando eu já estava contaminado pelo veneno da Igreja Moderna, o meu pecado era do tamanho de umas gotinhas de perfume roubado. Eu sabia que eu era pecador, mas eu já tinha esquecido que eu era responsável pela morte do filho de Deus e que Deus havia me perdoado. Veja bem: Quando alguém mata o seu filho e você pega um revolver e mata o assassino é vingança. Se você não mata, mas entrega o assassino às autoridades a fim de que ele seja julgado e condenado, isso é justiça. Mas se alguém mata o seu filho e você convida aquela pessoa para a sua casa, perdoa completamente e ainda a adota como filho, é GRAÇA. E foi isso que Deus fez por mim. Foi isso que eu consegui ver novamente que Deus fez por mim. Eu tinha visto isso no inicio de minha conversão, mas já havia esquecido. O veneno fez eu perder essa memória. Eu sou responsável pela morte do filho de Deus. Jesus morreu na cruz por causa dos meus pecados. Em vez de Ele exigir vingança ou justiça, Ele nos convida para a sua casa. Esse é o fim do “cidadão de bem”.

    Pense. Não estou falando do pecado de Adão. Estou falando dos meus pecados. Se eu estivesse falando dos pecados de Adão, teologicamente eu teria resposta diversa. Diria que a morte de Jesus foi para cumprir a justiça de Deus pelo pecado da raça humana. Só que isso já tinha ocorrido quando eu ainda nem tinha percebido que eu era pecador. Eu estou falando de meus pecados. Os meus e os de mais ninguém. Ele me perdoou completamente e me adotou como filho. Essa é a maravilhosa graça de Deus. E foi exatamente isso que eu voltei a entender após um namoro com o legalismo. Entendi que a vida cristã não dependia de mim, mas dependia da graça de Deus.

    Eu percebi essa graça em todos os relacionamentos de Jesus aqui na terra. Ele mostrou a graça com a mulher que pegaram em adultério; com a mulher samaritana, com Zaqueu. Apenas com os fariseus (donos de uma franquia religiosa da época) Jesus foi duro, duríssimo na verdade. Com os piores pecadores Jesus foi pura graça.

    Pensei da seguinte forma: se eu fosse começar uma igreja, será que eu chamaria como primeiro pastor um homem que me negou três vezes? Jesus escolheu Pedro. Quando Jesus ressuscitou, Ele mandou chamar os discípulos e também a Pedro. Pedro era um discípulo, mas recebeu um convite especial. Se ele não tivesse recebido esse convite especial, certamente ele pensaria que o mestre não queria vê-lo depois do que ele fez contra o mestre. Pedro experimentou a graça de Deus, a mesma graça que motivou ele para o seu ministério. Quando experimentamos essa graça, trabalhamos por amor e não por obrigação.

    Por muito tempo na Igreja eu passei a fazer a obra do Senhor por obrigação. Fazia para receber uma boa nota do Senhor no final do ano. Fazia para agradá-lo, para ser aceito por Ele. Quando eu passei a retomar o meu caminho, a ser descontaminado do veneno da religião, passei a servir por amor. Não podemos trocar a graça de Deus por nada. Começamos pela graça e continuamos na graça.

CONTINUA…

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8 Comentários

  1. Tenho 21 anos. Nessa quarentena, tenho sentido minha fé sendo avivada e reconstruída a cada instante. Sei que Deus irá me usar grandemente, talvez não em um púlpito como o senhor, mas como alguém que segue neste Caminho da Graça. Seu texto me motivou a reencontrar, mais uma vez, esse Deus que oferece seu Filho pelos nossos erros, nossas incontáveis falhas.

    Como discernir a culpa religiosa, a histeria humana do profundo desejo de Deus pela nossa santidade? Eu ainda estou descobrindo. E seguindo sem olhar para trás.

    Deus o abençoe grandemente por fazer parte deste processo, Alexandre. Ajudando a muitos com suas palavras cheias de doçura, verdade e fé. Nos conheceremos melhor no Reino, um dia, onde seremos como irmãos.

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