Um relato sobre sacerdócio, igualdade e a busca por uma igreja viva
Houve um dia, quando eu era pastor na Tijuca, no Rio de Janeiro, em que destruí o púlpito da igreja.
Eu, minha esposa e minha filhinha morávamos em cima do salão onde a igreja se reunia. Todas as sextas-feiras eu fazia uma vigília de oração, algo que aprendi com os quakers. Na maioria das vezes eu ficava sozinho. Quando muito, minha esposa e dois jovens participavam comigo.
Em uma dessas noites, estávamos ajoelhados na escada que dava acesso à plataforma ,do púlpito. Chorávamos e nos lamentávamos na presença do Senhor. Foi então que olhei para aquele púlpito com profundo incômodo.
Naquele momento lembrei de um dos princípios mais caros do Evangelho de Jesus: o sacerdócio de todos os crentes. Esse princípio afirma que o Espírito Santo habita no templo de Deus e esse templo é o coração de cada discípulo de Cristo. Portanto, diferentemente do que havia no Antigo Testamento, não precisamos de sacerdotes intermediários para ouvir a voz de Deus ou receber Suas orientações.
Lembrei também das palavras ditas pelo pastor batista Richard Spurling, em 12 de agosto de 1886 na Carolina do Norte quando da fundação da Igreja de Deus.
Descontente com o estado das igrejas batistas em sua época, cujos bancos tinham cinzeiro para o cigarro que os membros usavam durante os cultos e cujos templos eram usados como sede, da Klu Klux Klan, visto que essas igrejas não aceitavam negros, o pastor Richard, após romper com a igreja batista, falando para um público que o seguiu em uma campanha de santidade e oração nas montanhas, disse:
Todos os cristãos, como os que aqui estão presentes, que desejarem ser livres de todos os credos e tradições feitos pelos homens, e estão dispostos a tomar o Novo Testamento, ou seja a lei de Cristo, como sua única regra de fé e prática, dando uns aos outros direitos iguais e o privilégio de ler e interpretar para si mesmos como ditar suas consciências, e estão dispostos a reunirem-se como a igreja de Deus para realizar negócios como a mesma, venha à frente. (Carvalho, Silas. História da Igreja de Deus. Goiânia: Kelps, 1998)
Enquanto pensava nisso, olhei novamente para aquela plataforma elevada. Ela me colocava em uma posição mais alta que os irmãos que ali se reuniam, em um lugar de destaque. Aquilo começou a me incomodar profundamente. Pensei comigo mesmo: isso não está certo. Eu sou igual aos meus irmãos. Não sou sacerdote deles. Sou apenas servo e cooperador. Aliás, esse foi um dos princípios que nortearam muitos dos pioneiros do movimento pentecostal.
No Evangelho, Cristo nos colocou em uma mesma posição diante de Deus. Existem dons e ministérios na igreja para servir, organizar e edificar o corpo, mas não para criar uma classe espiritual superior. Se existe um lugar de igualdade, esse lugar deveria ser a Igreja. Foi então que, em uma dessas noites de vigília, olhei para minha esposa e para os dois jovens que estavam comigo e disse:
— Eu vou destruir esse púlpito.
A plataforma era de madeira e revestida com carpete. Peguei ferramentas e, com a ajuda e o espanto daqueles jovens, comecei a desmontar toda aquela estrutura.
Quando terminamos, não havia mais plataforma elevada. Restou apenas um suporte simples para colocar a Bíblia durante a ministração. Também retiramos as cadeiras que ficavam na frente do templo, onde pastores e diáconos costumam se sentar de frente para a congregação. Ninguém mais ficaria ali em posição de destaque, nem mesmo os músicos. Os músicos passaram a tocar voltados para frente, e não para a congregação. E o púlpito foi aberto para que outros irmãos também pudessem trazer palavras de edificação, consolo ou exortação, sempre com ordem e discernimento. Eu deixei de ser o centro das falas e passei a atuar mais como moderador das reuniões.
Talvez tenha sido o ímpeto de um pastor jovem (eu tinha pouco mais de 24 anos), o que me levou a agir daquela maneira. Com o passar do tempo, aprendi que as mudanças mais profundas precisam acontecer primeiro no interior das pessoas, no conteúdo, e não apenas na forma externa das coisas.
Ainda assim, ao lembrar recentemente desse episódio da minha história ministerial, reafirmo o quanto continuo acreditando em uma igreja mais orgânica e menos institucionalizada. Uma igreja que seja um organismo vivo, pulsante, e não apenas uma organização rígida que precisa recorrer a rituais litúrgicos para simular uma vida que talvez tenha se perdido ao longo dos anos.
Muitas vezes os rituais litúrgicos são apenas o que resta de uma vida espiritual que secou , da ausência da presença de Deus, da falta da Vida dEle enchendo o espírito.
Que esse simples relato acenda em você o desejo de exercer o seu sacerdócio com Cristo, sabendo que Ele pagou um preço caro para que todos nós pudéssemos ser sacerdotes dEle, com acesso livre ao Santo dos Santos.


