Um jovem pastor muito conhecido por seu canal de teologia no youtube, fez uma afirmação com tamanha convicção para um jovem que eu fiquei espantado.
Ele, no alto de sua mocidade, afirmou, com todas as letras, que Deus proíbe o divórcio, salvo duas exceções: adultério e abandono. Eu teria temor de fazer uma afirmação dessas, pelos motivos que direi a seguir:
É algo muito sério e controverso.
Quando somos jovens temos de cuidar com extremas convicções pois a maturidade nos ajuda ver a vida e as Escrituras com olhos muito mais apurados. Os próprios textos apresentam aparentes contradições, cujo debate é de séculos.
No evangelho de João, nada se fala sobre isso. Em Mc 10 e Lc 16 não há exceção nenhuma. Divórcio e novo casamento não podem e pronto! Essa é a regra geral (veja estou sendo literalista como o irmão que mencionei é).
A exceção aparece em Mateus 5 e 19. Vamos olhar esses textos.
Nestes, o novo casamento somente é permitido sob uma exceção.
A palavra utilizada como cláusula de exceção é traduzida como “fornicação” (relação sexual entre solteiros) na maioria das Bíblias. Por que?
No original grego é πορνειας (porneia) que se refere a todo tipo de pecado sexual, na maioria das vezes também traduzido por prostituição. Mas, algumas bíblias traduzem como adultério.
Entretanto, no próprio texto, é usada outra palavra para adultério, a saber, μοιχαται (Mt 19:9).
Portanto, a simples interpretação da palavra πορνεια já causa graves problemas!
Vejam a palavra “mundo” (em grego “cosmos”) tem nas Escrituras diferentes significados: em Ef 1:4, é sinônimo de universo; no Salmo 24:1 do planeta Terra (septuaginta); em Jo 3:16 de toda a humanidade; em 1 Jo 2:15 se refere ao sistema da sociedade atual rebelde e inimiga de Deus.
Seria um erro de interpretação fazer uma soma total dos diferentes significados e aplicá-lo a cada versículo da Bíblia onde aparece o termo “mundo”. O mesmo acontece com a palavra “carne” σαρξ (“sarx” em grego). Às vezes, significa a carne física, o corpo; outras vezes, a humanidade, em outras, a fragilidade humana; e em outras ocasiões se refere a nossa natureza pecaminosa.
Do mesmo modo, a palavra traduzida como “fornicação” e em algumas Bíblias como “adultério” (em grego “porneia”) tem na Bíblia pelo menos cinco significados diferentes:
Relação sexual entre solteiros (ex: 1Co 7:7, Dt 22:21, Lv 19:29, 1Ts 4:3-4);
União ilícita, proibida pela lei de Deus (1 Co5;1, Dt 22:30, Lv 18:8, Dt 27:20);
Todo tipo de pecado sexual incluindo o adultério (1 Co6:13-18, Nm 25:1);
Prostituição e comércio sexual de prostitutas (o mais óbvio);
Infidelidade espiritual, idolatria (Jr 3:6, Ez 23, Ap 17:1-2).
Fica claro que não se pode dar à palavra fornicação a soma de todos esses significados.
Portanto, se a pessoa quiser ser “ortodoxo”, deveria perguntar, em primeiro lugar, quem tem autoridade para dar o significado da palavra nesse texto.
Sendo assim, se a pessoa quiser ser ortodoxa e literalista nesse sentido estranho que vejo hoje, a melhor interpretação é acreditar que nem adultério seria exceção, conforme a patrística e a Igreja católica interpretam e acreditam.
Eles interpretam que, “porneia” deve ser traduzido como relações sexuais ilicitas, ou seja, pode contrair novo casamento caso a união seja ilícita (não casados na comunidade, consanguinidade e etc).
Quero lembrar que em Mateus 19, Jesus respondia a uma pergunta capciosa dos fariseus.
Se formos nos guiar pela mais rigorosa interpretação do texto, adultério nao seria exceção para recasamento, nem qualquer pecado sexual, incluindo a pornografia (olha porneia ai) poderia ser exceção. Veja que não é nada simples que possa justificar que sejamos cheios de presunção e certezas.
De acordo com o sentido do texto e de outros textos comparativos, a palavra fornicação em Mt 19:9 e 5:32, não tem o significado de adultério. Os dois possíveis sentidos são: Ter praticado relações sexuais sendo solteiro(a), ou estar em uma união ilícita, que deve ser dissolvida.
É também importante notar que Jesus nunca disse “a não ser por causa de adultério” (grego μοιχαται), e sim “a não ser por causa de fornicação (grego πορνεια). E quando uma pessoa divorciada se casa com outra, nunca disse πορνεια, e sim μοιχαται. Lembra da “coisa vergonhosa” Dt 24:1?
Portanto, minha conclusão é a seguinte: jovens, cuidem com as suas firmes condições. Duvide delas. Duvidar delas não é duvidar de Deus. É duvidar de você mesmo. Se queres ser um literalista, seja coerente e siga a interpretação com mais base histórica, a da patrística.
Mas, se quiser seguir a interpretação de Westminster, tenha resposta aos problemas acima e responda às seguintes perguntas: quando ocorre o adultério? Desejar outra pessoa é adultério? Ou tem que beijar? Abraçar? Pegar na mão? Trocar “nudes”? Ver pornografia é adultério?
E se a irmã da igreja chega com olho roxo pois apanhou do marido, digo pra ela o que? Ficar com o espancador? Se separar e viver sozinha? Ou eu peço pra ela se separar, ficar sozinha e vigiar a vida do ex. Quando ele arrumar alguem, pimba!, pode casar agora pois ele adulterou!(?)
Deixo para os pastores jovens (somente aos que de fato apascentam vidas) as pulgas atrás de suas orelhas para que sejam instigados a não se acomodarem em suas convicções. Acreditem: sua fé irá se robustecer. Palavra de quem já passou por grandes provações e mantém sua fé.
Ah, antes que eu me esqueça: nem quis perder tempo com a suposta exceção do abandono de I Co 7 pois essa é a mais sem cabeça possível, visto que não fala de recasamento. Literalistas e pseudo ortodoxos, melhorem! Ou, como eu disse, duvidem de si mesmos e de algumas de suas convicções. A poimênica agradece


